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Meu Boi... Nosso Patrimônio Cultural


NOSSO OBJETIVO É PESQUISAR, DIVULGAR E ORGANIZAR AÇÕES DO FOLQUEDO DO BOI DE REIS NO RIO GRANDE DO NORTE. BUSCANDO NESSES GRUPOS A SUA ORIGINALIDADE E CONTINUIDADE. O BOI DE REIS NO RN DEVE SER INVESTIGADO, INSTIGADO, RECONHECIDO E INCENTIVADO POR TODO O BRASIL COMO TRADIÇÃO NACIONAL.


Minha Santa Madalena, virgem dos cabelos loiros...

Minha Santa me ajude na massa do pão criolo...

Ai Juvelina, que é seu Juvenal

É hora de tirar leite meu garrote quer mamá

Balança que pesa ouro num pesa todo metal

A moça chupa laranja de baixo do laranjal...


quarta-feira, 8 de junho de 2011



O autêntico Boi de Reis de Cuité e Bocas: Folclore de Pedro Velho, RN.

A origem e os “brincantes”.
O tradicional Boi de Reis de Bocas, também conhecido por “Boi de Reis de Cuité” surgiu nas primeiras décadas do século XX. As comunidades de Cuité é Bocas são distritos vizinhos e pertencem a Pedro Velho-RN. Os integrantes dessa arte popular são dessas comunidades.
O grupo teve início através de duas famílias: Joaquim e Marreiro. Dessas famílias ainda mantém viva a tradição do Boi, os netos e bisnetos. É o caso do Sr. Arlindo Marreiro da Silva com mais de 60 anos e seus filhos Aristelço e Adivan integrantes do grupo que foi passando de geração em geração, porém, sem a presença da mulher. Isso explica o caso das damas. A “maruja” é formada por seis galantes enfeitados e duas damas que são, conforme a tradição, meninos vestidos com roupas de meninas. Eles usam calças compridas com cores brancas e vermelhas e chapéus com fitas multicoloridas. Não podem faltar os espelhos e as espadas com características medievais. Os galantes precisam estar brilhantes para a festa.
O Boi de Reis de Cuité e Bocas brilha no palco do FEFOL - OLÍMPIA-SP






Segundo a história, esses galantes representam a alta sociedade. Contrapondo a esse grupo e integrando o folguedo, tem três personagens engraçadas (Mateus, Birico e Cravo Branco) que seguram uma garrafa com querosene servindo de candeeiro (lamparina) para iluminar a festa; no tempo do surgimento do grupo, quando não havia energia elétrica. Essa tradição das garrafas permanece viva na dança do folguedo até hoje. É uma marca fundamental que elege o Boi de Reis de Bocas, um dos mais tradicionais e originais do Brasil.
O reisado tem passos de danças sincronizadas e imitadas pelos mascarados que seriam os representantes populares (os pobres) com combinação de elementos da cultura portuguesa, nordestina brasileira e africana. Apresentam-se com os rostos pintados com tinta preta e maltrapilhos, usam chapéu de couro, evidenciando o contraste social com os galantes (ricos). Fazem caretas, dançam, pulam e cantam. Os estudiosos remetem a origem do folguedo a Portugal no século XVIII e as figuras dos mascarados seriam advindas dos vaqueiros da criação de gado dessa época. As cores vermelhas e verdes mostram bem as cores da bandeira de Portugal e de aspectos da cultura portuguesa.






O ritmo da dança é marcado pela bandinha que acompanha a tradição do Boi: tem o rabequeiro tocando ao centro na companhia do pandeirista e do triângulo. Os integrantes da banda usam roupas quadriculadas que lembram os festejos matutos das quadrilhas juninas. O instrumento mestre da bandinha é a rabeca tocada por Damião Soares de Lima, o Missionário. É o rabequeiro mais antigo de Pedro Velho e aprendeu a tocar o instrumento por curiosidade. Ele teme não encontrar um substituto e dificultar a continuidade do Boi de reis que depende fundamentalmente da rabeca.
Os integrantes do Boi de reis são: Mestre Zé Candido, Do Rêgo, Ramos, Adivan, Ozenildo, Genilson, Zé Joaquim, Zezinho. Os mascarados: Arlindo (Mateus), Antonio (Birico) e José Augusto (Cravo Branco); a bandinha tem Missionário (Rabeca), Gabriel (pandeiro) e Aristelço (Triângulo). O grupo atualmente apresenta algumas renovações por motivo de idade e estado de saúde: O Cravo Branco Sr. José Augusto não brinca mais com o grupo. Algumas vezes, a bandinha e o reisado também renovam integrantes em algumas apresentações por necessidade de trabalho.
Até meados da década de 70, os brincantes de Boi de reis animavam as festas sociais das cidades da região Agreste e Litoral Sul Potiguar, bem como de outras cidades da Paraíba. Era a diversão dos mais velhos de hoje e de outras pessoas que não conheceram a era da Televisão. Com o advento da energia e dos meios de comunicação de massa, a arte do Boi foi sendo esquecida. Recordo-me quando criança ainda ter visto a brincadeira do Boi na praça de Pedro Velho nas festas do Padroeiro, Natal e Ano novo na década de 80.

Boi Pintadinho



Sr. José Augusto, o eterno Cravo Branco - nossa homenagem


O resgate da arte.
Com a criação da Semana de Arte, Cultura e Humanidades, denominada Semana Chico Antônio realizada em Pedro Velho de 1997 a 2002, o Boi foi revitalizado. As apresentações nesse evento levaram o Boi, quase extinto, às páginas dos jornais em nível estadual e encantou o folclorista Deífilo Gurgel que estava presente e percebeu a autenticidade do grupo.
As músicas do Boi de reis têm conotação religiosa revezando entre o sagrado e o profano. Inicia o folguedo com o “aboio”, um chamado ao boi semelhante ao canto dos vaqueiros com a manada. Depois vem a “masseira”, uma cantoria em que o Seu Juvená chama Joventina que “é hora de tirar leite e o bezerro quer mamar” e uma crítica ao valioso metal de uma época pobre: o ouro. “Balança que pesa ouro, não pesa todo metá”. A linguagem excentricamente coloquial das músicas é rica para análise social e sintática. O uso de rimas nos fonemas é feito de forma natural e dão o tom da musicalidade. A “masseira’ saúda os galantes que se animam para a festança.
No primeiro momento da festança, o Boi de reis começa a cantoria com músicas religiosas, dentro de casa, saudando a família e fazendo seu cumprimento religioso. O segundo momento acontece no terreiro onde ocorrem as danças dos galantes e damas acompanhados do Birico, Mateus e do Cravo Branco. Durante a dança, os mascarados buscam arrecadar alguma oferenda com o seu chapéu de couro ao público presente. O momento mais importante é a entrada do Boi (reze) de pano, símbolo maior do folguedo, o boi de Cuité é conhecido por “Pintadinho”. O boi faz sua apresentação e depois começam as “vendas” ao público fazendo reverências as pessoas em troca de recompensa em dinheiro.



O Boi em São Carlos - SP


A estória virando história.
Sabe-se na história mundial que o boi é um animal cultuado como deuses em várias sociedades. Para os indianos, por exemplo, a vaca é um animal sagrado. No folclore brasileiro, o boi recebe várias denominações conforme cada região (bumba-meu-boi/MA, boi-de-mamão/SC, Reis-de-boi/ES, Boi-Calemba, Bumba (PE), Boi-Bumbá (PA)). O boi um dia já foi moeda de troca (cabeça de gado).
No Rio Grande do Norte, o “Boi-de-reis” de Bocas e Cuité tem uma estória fascinante oriunda do valor que o boi teve na sociedade agrária do final do século XX. Conta a estória de um vaqueiro que cortou a língua do boi de seu patrão para satisfazer a esposa grávida. O vaqueiro sacrificou o boi da fazenda e, depois, tentou ressuscitá-lo para não receber a punição do dono. Depois de muita confusão e reza, o boi ressuscita e tudo vira festa. Contam os estudiosos que o boi de reis de Bocas não representa a morte do boi e mantém a alegria da dança em homenagem ao boi vivo ou já ressuscitado.





Missionário e sua rabeca
O sucesso do auto
Depois de muito tempo sem fazer apresentações, a Semana Chico Antônio de 1997 foi decisiva. Desse palco, o Boi de reis foi redescoberto e ganhou o Brasil. O grupo passou a fazer várias apresentações nas cidades e estados circunvizinhos. Fez apresentação em Pernambuco e na Capitania das Artes em Natal-RN, e em 2006 alcançou o seu evento ápice: o Boi de reis encantou o Brasil no maior Festival de Folclore da América Latina, o FEFOL de Olímpia-SP.
Antes desse Festival, o grupo participou o Projeto “Música do Brasil” do antropólogo Hermano Vianna, irmão do cantor Herbert Vianna, vocalista da Banda “Os Paralamas do Sucesso”. As músicas do Boi estão em duas faixas de um CD do Projeto que tem músicas de boi de vários lugares do Brasil. Dessa produção também saiu uma gravação em vídeo da dança do boi que teve exibição na TV Futura com apresentação de Gilberto Gil. O boi ganhou o mundo através de site, Fita VHS, livro e CD. O grupo está na expectativa dessa obra virar DVD e que, merecidamente, todos os integrantes tenham um retorno financeiro para suas famílias e para a manutenção do Boi de reis.


O Boi de reis no palco do FEFOL - momento histórico

Mestre Zé Cândido comanda a cantoria no FEFOL 2006






O Boi no Palco principal do FEFOL - OLÍMPIA-SP



O Boi em São José do Rio Preto-SP


Para os “brincantes”, o auto do Boi de reis é uma diversão. Quando não existia televisão, a brincadeira que chamava a atenção de crianças, jovens e adultos era o folguedo do Boi de reis. O ser humano em sua identidade cultural sente a necessidade de diversão, alegria e contado com o mundo das representações e das manifestações folclóricas de sua terra. Isso acontece em qualquer cultura e não é compreendida pela juventude capitalista que consome informação voltada ao consumo e ao moderno. Um moderno que oculta a verdadeira identidade do povo em troca de um modismo de apelação sexual e de ordem econômica. Para os jovens de hoje, a arte do boi é vista como cafona, feia e “fora de moda”. O moderno é visto como bonito: é o Pearce, a roupa decotada, o glamour, o salto e as ilusões das novelas.
Não é que a diferença entre o chique e o brega esteja na roupa ou na mídia, mas é o reconhecimento dos valores que estão sendo rejeitados e mal entendidos. Imaginemos os jovens de hoje numa vivência sem energia elétrica, provavelmente, estariam assistindo ao Auto do Boi de reis que levava luz e alegria à toda comunidade, antes sem eletricidade. Nosso respeito a quem transmitia essa felicidade e hoje mantém viva a arte do Boi de reis.

O Boi de Reis no SESC em Catanduvas-SP



Sr. Missionário - Rabequeiro

A figura do Boi Pintadinho


Mateus e Cravo Branco



Ema: outra figura folclórica do auto.

Passando a fita


Mestre João Joaquim, um dos fundadores.

Birico


Guriabá

A realidade do folguedo.
O grupo ainda tem dificuldades em se manter. Como os “brincantes” dançam muito e fazem várias apresentações, precisam renovar o figurino: tênis, calças, camisas, enfeites, o boi e outras figuras que fazem parte do auto, o Jaraguá, o Guriabá e a Ema. O reisado recebe cachês baixos em suas apresentações. É formado por pessoas simples e humildes e são agricultores.
O boi de reis de Bocas e Cuité fez apresentações no palco principal do FEFOL e nas cidades vizinhas a Olímpia-SP. Apresentou-se no SESC em Catanduvas e fez apresentações em São Carlos e São José do Rio Preto, além de usinas patrocinadoras do FEFOL e no almoço folclórico do evento que reunia, dentre outros grupos, muitos curiosos e amantes do folclore brasileiro.











Jaraguá





A viagem de ônibus foi bastante cansativa. Na ida, o ônibus da empresa Itapemirim pegou o caminho para Guarulhos e depois de uma troca de ônibus, mais quatro horas de viagem ao interior de São Paulo. A volta, tirando algumas indigestões, foi mais tranqüila por Minas Gerais com direito a uma parada no parque do vaqueiro da festa do peão em Barretos ainda Estado de São Paulo.
Portanto, a Arte do Boi de Reis de Bocas e Cuité permanece viva e brilhando, fazendo história e mantendo ativo o folclore de Pedro Velho-RN. Veja as fotos inéditas do FEFOL, fotos antigas e de outras apresentações do nosso autêntico Boi de Reis. Que o folclore seja eterno e os valores culturais vivam pra sempre sobrevivendo ao tempo e as mudanças e evidenciando a identidade do nosso povo.
Brevemente, postarei um vídeo inédito da apresentação do Boi de reis no palco do FEFOL.

Por Cledenilson Moreira

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Boi de Reis Cuité - Pedro Velho

Folclore: Boi-de-Reis resiste ao tempo no RN

Luz elétrica não tinha e, portanto, televisão. Era um único clarão cortando as noites: três homens, cada qual segurando uma velha lamparina acesa, metidos nuns ternos estropiados e com chapéu de couro — a cara preta que parecia carvão —, se enfiavam no meio do mato cantando, dançando e fazendo careta. Uns moços bem enfeitados, iam atrás, acompanhando o rabequeiro e os tocadores de pandeiro e triângulo que se somavam ao grupo. E tinha mais a figura de um boi sacolejante, a rodar e ir pra frente e pra trás.
Quase toda noite, aquela brincadeira que lembra uma mistura de circo, dança, teatro de rua e carnaval saía do sítio Bocas, na comunidade rural de Cuité, pertencente ao município de Pedro Velho-RN, e adentrava as comunidades naqueles rincões; ganhava a estrada e ia dar na Paraíba. O Boi-de-Reis de Cuité levava luz e alegria à toda gente ali, antes da eletricidade.
A luz elétrica chegou e ofuscou o brilho do Boi. E depois da TV, ele nunca mais foi o mesmo. A tradição não acabou, mas a brincadeira espontânea não tem mais. O grupo se apresenta, geralmente, em eventos de cultura popular. O Boi-de-Reis de Cuité sobrevive há quatro gerações em duas famílias de agricultores de Pedro Velho, os Joaquim e os Marreiro. Já tem neto e bisneto dos primeiros participantes brincando.
Como a tradição não permite mulher, a dona-de-casa Elina Soares da Silva, 57, apenas assiste e incentiva o marido Arlindo Marreiro da Silva, 59, e os filhos Aristelson (20) e Adivan (19) para que eles não deixem a brincadeira morrer. “Teve um tempo que parou. Os mais antigos foram se acabando e não tinha ninguém pra dar continuidade”, lembra.
Aos 90 anos e doente, Geraldo Marreiro, pai de Arlindo e Mestre do Boi-de-Reis de Cuité, se aposentou mas deixou a coisa encaminhada. “Ele deve ter visto a brincadeira por aí. Aprendeu e ensinou tudo a gente”, fala Arlindo, que começou a brincar o boi ainda menino, como dama. Depois passou a galante e hoje é o mascarado Mateus. Metido num terno roto, descalço e com a cara pintada de preto, é o vaqueiro que vai pegar o boi. A lamparina acesa remete à época em que não havia luz elétrica. O folguedo, dizem os estudiosos, tem origem no Nordeste do século 18, associado à criação de gado. Como o nome, a formação varia de acordo com o lugar.
O de Cuité é composto de três mascarados e oito enfeitados — seis galantes e duas damas. E tem ainda os três homens da bandinha (o rabequeiro e os tocadores de pandeiro e triângulo), além das figuras. O Boi de Cuité é considerado um dos mais originais do Brasil. Daí, sua grande importância.
Mas a sobrevivência do grupo não é fácil não. Viver da brincadeira, ninguém vive. Os cachês que os participantes ganham dão apenas para renovar o figurino. Em 2006, o Boi-de-Reis de Cuité foi bater em São Paulo. As apresentações renderam o maior cachê da história do grupo: R$ 3 mil para dividir entre 15 pessoas.
Mestre: Boa noite minhas senhoras/ e meus senhores também/ sou o mestre da brincadeira/ que todo ano aqui vem/ para brincar o reisado/ todo bonito enfeitado/ Viva Jesus em Belém.
Mateus: Boa noite para todos/ nessa noite tão singela/ Viva a honra dessa casa/ Os Santos Reis no seu dia/ Viva a nossa brincadeira/ e viva a família inteira/ Jesus, José e Maria.
Birico: Boa noite para todos/ nessa noite tão singela/ Nem todo cavalo esquipa/ nem toda moça é donzela.
Mestre: Mas, que é isso, Birico? Fale com o povo direito.
Morte e ressurreição do Boi de Cuité
A chama da lamparina apagou por uns anos. O Boi-de-Reis de Cuité arquejava, mirava o olhar na direção dos “enfeitados” e via apenas umas figuras pálidas e turvas serem engolidas pelo mais completo breu. Parecia que não ia ter jeito mesmo não.
Ainda que houvesse figurino, não tinha quase mais gente pra brincar. A tradição estava praticamente morta em 1997, ano em que o município de Pedro Velho realizou o I Encontro de Artes, Cultura e Humanidades.
Veio daí o sopro que fez a chama da velha lamparina começar a reviver. O professor de Geografia João Hortêncio, coordenador de Cultura e Meio Ambiente em Pedro Velho, lembra hoje que por ocasião do evento “foi feito um trabalho de resgate do que estava perdido na cidade”.
De fora da comunidade, chegou um senhor franzino e paciente — o pesquisador de cultura popular Deífilo Gurgel — que exaltou a originalidade do Boi de Reis de Cuité, colocando-o como um dos mais importantes do Brasil. A chama cresceu um pouco mais.
No ano seguinte, um careca de óculos, de lugar ainda mais distante, pisou na terra do coquista Chico Antônio para conhecer o boi e difundi-lo além do Rio Grande do Norte. O antropólogo Hermano Vianna, irmão do roqueiro Herbert Vianna, documentou o grupo folclórico de Cuité para o projeto multimídia Música do Brasil.
Junto com o Boi Mamão de Santa Catarina, o Cavalo Marinho de Pernambuco, o Boi Bumbá do Pará e o Bumba-meu-Boi do Maranhão, o Boi-de-Reis de Cuité/Pedro Velho ganhou o mundo por meio de livro, site e documentário em fita VHS (ainda não existia DVD).
Era o que faltava para a lamparina lampejar e o boi voltar a ficar de pé. Não é como nos tempos de antigamente, quando não tinha luz elétrica, mas a tradição vive. E que siga adiante.
A história do rabequeiro Damião
Viva o menino Damião e sua traquinice! Não fosse pela teimosia do danado do menino, sabe-se lá o que seria hoje do Boi-de-Reis de Cuité. Muito antigamente, depois de brincar no boi, Damião ficava com as butucas bem arregaladas, só espiando o rabequeiro do grupo pra saber aonde ele ia entocar o diacho da rabeca.
O tocador escondia o instrumento pra que ninguém bulisse, mas o menino ia e metia a mão. A rabeca ficava escorada num pé de parede. Quando o dono escutava o som e ia atrás, esbaforido, o menino já tinha “arranhado” o instrumento um bocado e desatado a correr e pinotar no meio do mundo.
Um dia o rabequeiro morreu. Damião estava rapaz e já mandava um forró pé-de-serra danado na rabeca. Canhoto, aprendeu a tocar o instrumento com as cordas invertidas (as de cima em baixo e as de baixo em cima). E disso se gaba até hoje.
Essa é a história de como Damião Soares de Lima, 66, virou rabequeiro do Boi-de-Reis de Cuité e ajudou a manter de pé uma tradição. Se não acredita, vai lá na comunidade, a 4,5 km do centro da cidade de Pedro Velho, bem no rabo do elefante, e pergunta pro pessoal.
O próprio Damião vai contar tudinho com muito prazer. E vai falar ainda mais. Ele dirá, por exemplo, que anda preocupado com o futuro do Boi-de-Reis de Cuité.
“Antigamente, eu tinha que ir escondido pegar a rabeca, porque o tocador não deixava. Hoje, procuro e não acho sequer um menino interessado em aprender o instrumento.”
O boi, segundo Cascudo
“Boi Calemba, Bumba (Recife), Boi de Reis, Boi Bumbá (Maranhão, Pará, Amazonas), Três Pedaços (Porto da Rua, Porto de Pedras), em Alagoas, Folguedo-do-Boi em Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro (Macedo Soares), sendo a primeira denominação a mais vulgar e geograficamente conhecida. Bumba é interjeição, “zás”, valendo a impressão de choque, batida, pancada. Bumba-meu-Boi será “Bate! Chifra, meu boi!”, voz de excitação repetida nos cântigos do auto, o mais popular compreendido e amado do Nordeste, o “folguedo brasileiro de maior significação estilística e social”, para Renato Almeida.
Exibe-se dos meados de novembro à noite de Reis, 6 de janeiro, pertencendo ao ciclo do Natal e sua presença no carnaval é reprovada pelos tradicionalistas. Apresenta-se em terreiro livre, campo aberto, não demandando tablado e atendendo aos convites para residências particulares. A mais antiga menção é a de Padre Miguel do Sacramento Lopes (1791-1852), constituído já com figuras, bailados e enredo. Datará das últimas décadas do século XIII e seu ambiente foi o litoral, engenhos de açúcar e fazendas de gado, irradiando-se pelo interior (...)”
Folclore vivo - Documentários vão virar livro e dvd
O acesso ao sítio Bocas, na comunidade de Cuité, se dá por uma estrada de barro. Depois de 4,5 km — a partir do centro de Pedro Velho — paramos ao lado de uma casa amarela bem simples onde o pessoal se aprontava para a apresentação. O Boi-de-Reis de Cuité foi o segundo grupo visitado pela TN junto com a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore para o projeto de documentação Folclore Vivo, iniciado neste ano com apoio da Fundação José Augusto.
As viagens pelo interior do RN começaram por Barra de Cunhaú. Estivemos lá em fevereiro para documentar a Chegança. Dizem os pesquisadores tratar-se do único grupo no Brasil que preserva as características originais desse auto que representa a luta entre mouros e portugueses. O projeto Folclore Vivo, segundo o seu coordenador, o pesquisador de cultura popular Severino Vicente, vai gerar um livro e um DVD — uma emissora de TV local também está documentando as manifestações.
Saiba mais
1) Boi itinerante - Além do documentário feito por Hermano Vianna, há um outro registro do Boi de Reis de Cuité. Na década de 90, o professor de Geografia João Hortêncio, coordenador de Cultura e Meio Ambiente em Pedro Velho, pegou uma câmera e saiu atrás do Boi, registrando a brincadeira em 13 pontos distintos da comunidade. Deu o nome de “O Espetáculo Itinerante do Boi-de-Reis de Cuité”.
2) Terra rica - Pedro Velho é terra fértil em matéria de cultura popular. Lá nasceu o coquista Chico Antônio (1904 - 1993). Cantando cocos acompanhado do seu ganzá, o autor de “Boi Tungão” deixou boquiaberto Mário de Andrade, na passagem do modernista pelo RN em 1929.
3) A festa - É uma espécie de ópera popular, cujo conteúdo varia entre os inúmeros grupos de bumba-meu-boi existentes, mas, basicamente, desenvolve-se em torno da lenda do fazendeiro que tinha um boi de raça, muito bonito, e querido por todos e que, inclusive sabia dançar.
4 ) Estrutura e formação - O RN é onde o Boi se apresenta com a formação mais simples. O elenco é formado pelo Mestre, os vaqueiros Mateus e Birico, Catirina, os galantes e as damas. Depois vêm as figuras do Boi, o gigante e o Jaraguá. O espetáculo se resume a cantos e bailados interpretados pelos galantes, as piadas e as loas ditas por Mateus e Birico, e a apresentação das figuras.

Fonte: Tribuna do Norte

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Boi de Reis de Manuel Marinheiro




O GRANDE MESTRE MANUEL MARINHEIRO



O Mestre Manuel Marinheiro é o símbolo de uma época de ouro do folclore potiguar e de sua luta para não cair no esquecimento. Nascido Manuel Lopes Galvão, na fazenda Morena, em Goianinha, 63 quilômetros de Natal, já tinha na família uma tradição de mestres em boi-de-reis. Seu pai, João Lopes Galvão Filho, herdou do próprio pai a brincadeira. “E meu avô, do pai dele...”, diz. Como os participantes do folguedo são conhecidos como a “maruja”, o termo Marinheiro logo virou sobrenome da família. Devido a família não ter as melhores condições fi nanceiras, seu Manuel foi criado pelo padrinho, Mario Raposo Bandeira, em Natal. “Meu padrinho era doutor, engenheiro e comandante do Cais do Porto”, diz com orgulho. Nos fins de semana, corria para Goianinha para brincar no boi.
Assim, quando ganhou o título de mestre das mãos de seu irmão mais velho, Zé Marinheiro, deixou de ser Lopes Galvão para ser só Manuel Marinheiro. “Meu irmão viu que eu era muito interessado, que sabia as cantigas todas, e resolveu passar o boi para mim” Dessa época, seu Manuel guarda boas recordações. “Certa feita, a turma ia se apresentar num festival nacional de folclore, era minha primeira viagem de avião. Nas comemorações, na noite anterior, soltaram um rojão que acabou incendiando o galpão do ‘De Pé no Chão...’ onde estavam todas as indumentárias do boi. O jeito foi viajarmos só com o bambelô. Nem dormimos na noite da viagem, fazendo aquela fuzarca no aeroporto. Quando chegamos no Encontro, em Porto Alegre, tinha grupo de todo canto, cada um tinha meia hora de apresentação. Éramos os últimos. Subia cada grupo bonito, com umas moças que dançavam em roda, como se fosse um botão de rosa, a coisa mais linda do mundo. A gente pensava: ‘vamos passar é vergonha’. Que nada. Quando subiu o bambelô, que tinha 32 pessoas, e começamos a cantar: ‘O meu Natal, oh mano/Ô que terra beleza/Lá ficou Paulo Afonso/Alumiando a pobreza’, o povo quase não deixa agente descer do palco”. Naquele tempo a cidade fervilhava de grupos folclóricos.
“Quando trabalhei na Federação das Artes, que me lembro, tinha seis bambelos, o Araruna, três cheganças, três lapinhas, três fandangos, o Camaleão, o Acoã, três pastoris, além das escolas de samba e dos grupos de capoeira”, relata. Seu grupo tinha uns 20 marujos, mas depois diminuiu para 16. Os músicos que acompanhavam, na época, tocavam violino (rabeca), surdo (zabumba), pandeiro, triângulo. “Na época de meu pai tinha até sanfona. O grupo começava a se apresentar às 7 da noite e vinha caminhão de gente. O boi ia até duas, três da manhã, depois entrava o forró e amanhecia o dia, 7 da manhã, na festa”. Por volta de 1966, a irmã de criação, pesquisadora Mizabel Pedroza, autora do livro Folclore do Brasil, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, levando-o consigo. “Fui para passar só seis meses, acabei ficando dez anos”. Trabalhou como porteiro, encanador, “faz-tudo”. Conheceu Odaíza, casou e, seis meses após a cerimônia, resolveu voltar para Natal. “Eu sonhava dançando o boi-de-reis. E queria mostrar para Iza como era”. Quando voltou, tudo havia mudado. O grupo, que deixara ativo, encontrava-se fechado já havia algum tempo. O pessoal quando soube que ele tinha voltado caiu em cima. Logo, já estava reunindo uma turma e voltando a ensaiar. “A gente saiu pelos interiores, passamos uns seis meses. Era ensaiando e se apresentando ao mesmo tempo”, afirma.
Não era comum que mulheres participassem da brincadeira. “Eu resolvi acabar com isso, por que era uma besteira muito grande. Antigamente, as damas eram meninos vestidos de moça, e a rapaziada não queria mais se vestir de mulher, por causa da chacota”. Dona Iza acabou se transformando na espinha dorsal do boi, assumindo a confecção das roupas e fantasias.....
Quando o pessoal me pergunta (por que danço o boi-de-reis), digo que foi uma herança que meu pai me deixou e eu tomei conta disso. No tempo de eu moço, para mim era o maior divertimento, eu nunca tive o esporte de beber, de jogar, de fumar. Meu esporte toda vida foi dançar”
 
 
 
 
Reportagem de Alex de Souza para a Revista Preá N° 01, Maio 2003
 
 

 







 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mestre Lucas (in memoriam)




ENTREVISTA - DEÍFILO GURGEL

“Grupos do RN precisam de ajuda”

Além de Dona Militana temos grandes mestres do folclore potiguar vivendo à míngua. O que pode ser feito? A Lei do Patrimônio Vivo seria uma solução?
Temos muitos, como o Congo de Calçola do mestre Zé Corrêa, na Vila de Ponta Negra. Mas o Congo mais bonito que já vi no Rio Grande do Norte foi de São Gonçalo do Amarante. É lindo eles dançando, com saiotes brancos rendados. Mas esse o mestre João Menino - outro mestre espetacular - morreu. Os dois guias se desentenderam e um acabou com outro. Ainda fazem uns Congos, mas não mais na Sombra, lugar de origem perto de Uruaçu, onde tem o monumento dos mártires. Levei o grupo para dançar no TAM. Foi um sucesso estrondoso. A maior ovação que já assisti no TAM; uma coisa incrível.

E a Lei do Patrimônio vivo, de autoria do deputado Fernando Mineiro que deveria assistir a estes mestres e grupos?
Não entrou em vigor. É uma pena. Pelos conhecimentos que tenho o folclore do RN é o mais bonito e perfeito do Brasil. Temos o Bumba meu Boi do mestre Antônio da Ladeira, de Santa Cruz. Tem outro Boi bom, em Pedro Velho, no Distrito de Cuité, comunidade Quatro Bocas. Eles são tão primitivos que quando se apresentam, Mateus e Birico vão à frente do grupo levando lampiões de querosene acesos, numa espécie de varas, como faziam antigamente quando dançavam no mato sem iluminação. Tem ainda hoje o grupo Trapará, pros lados de Macaíba e São Gonçalo. Tem o Fandango fenomenal de Canguaretama. E a Chegança, em Barra do Cunhaú que merecem atenção especialíssima. Para se ter idéia da importância, esses dois grupos seriam os primeiros indicados pela Comissão de Folclore para serem beneficiados com a Lei de Mineiro. Ou basta dizer que tempo desse vieram dois folcloristas brasileiros só para ver esses grupos; fizeram documentação, e hoje estão lá sem maiores estímulos. Não sabemos até quando resistem. Vivem de migalhas salariais. O diretor da Chegança, Valdemir Marques é humilde, mas de uma sabedoria impressionante. São três horas de apresentação e ele sabe todas as cantigas. Talvez sejam os únicos do RN. E nas condições de beleza e fidelidade às tradições, são os únicos do Brasil. Temos ainda a Lapinha - acho que a única - em Barra de Maxaranguape, de Dona Moça. E o Caboclinhos de Ceará-Mirim, de mestre Birico.

Isso entre os autos. E entre as danças?
Tínhamos o Bambelô, em Natal, dançado na Avenida 4, de mestre Severino Guedes, mas esse acabou. Tem o Maneiro Pau, no Alto Oeste. O Côco de Roda, em Canguaretama. Em São Gonçalo há grupo tradicionalíssimo com o Espontão. Temos ainda o Bandeirinha, em Touros, e o Capelinha de Melão, em Caraúbas, que se apresentam no São João, além do Araruna daqui. São grupos e mestres que merecem melhor atenção.

* Matéria publicada no Diário de Natal, entrevista de Deífilo Gurgel publicada no jornal em abril de 2009.

domingo, 8 de maio de 2011

Tradicionalismo folclórico da fogueira:

O bumba-meu -boi junino

Manuel Balbino de Barros

Certamente o leitor achará exótico o subtítulo, interrogando: Meu Deus! o bumba-meu-boi não é um bailado do ciclo do Natal devendo ser incinerado no dia seis de janeiro?
Já foi exclusivamente. Agora, essa tradicional folgança se exibe em nosso meio pelo carnaval, nas festas juninas etc., fora da época histórico tradicional, e ninguém duvide que o boi-dos-reis venha a lançar futuramente, até em feiras aliás de tão popular que se nos apresenta.
No Rio Grande do Norte existe a prática da queima do bumba-meu-boi, no dia de Reis, quando se reúnem todos do popular bailado e jogam à fogueira quase todo o material de que se serviu o auto, se bem que essa brincadeira constitui um meio de ganhar o pão para os seus componentes, no período de sua exibição. Só escapam ao fogo cabeças dos bichos como as do bode e do boi, talvez, por ser difícil de se encontrarem outras, munidas de chifres grandes e resistentes bem como a de jaraguá e outras além dos espelhos que ornamentam as damas e os galantes.
É que essa folgança veio do Velho Mundo para o Brasil, onde tem sofrido profundas modificações tanto no que concerne aos personagens como no que diz respeito aos cânticos, loas etc. Os que brincam e se formaram nas caatingas ou sertões nordestinos têm que diferir dos que nascem pelos litorais, pelas zonas da mata e pelas metrópoles...
Assisti, no dia 23 de junho findo, ao bumba-meu boi de Antônio Pereira, dirigido pelo folclorista Sebastião Lopes, e que se exibiu na sede da Sociedade Folclórica de Apicucos, durante os festejos juninos deste ano, tendo se apresentado as seguintes figuras ou personagens: o boi, o cavalo-marinho ou capitão (o manda-chuva do folguedo) a burra caiu (burrinha), a ema, o babau, o morto-carregando-o-vivo, o pigmeu, o Mateus e o Sebastião.
Todas as figuras dançaram de uma só vez ao contrário no interior conforme presenciei no Rio Grande do Norte onde se sucedem as representações, saindo o jaraguá, o bode, o cavalo-marinho, o gigante (com sua inseparável mulher de duzentos anos), a burrinha, o engenho, o boi bem assim sucessivamente, outras figuras dramáticas e tradicionais havendo lá sempre o sacrifício do boi.
Antônio Pereira forneceu-me a relação das figuras bichos e personagens que compõem o seu bumba-meu-boi completo que são além dos que brincaram em Apipucos: o Mané-Pequenino, a pastorinha, o romeiro, o bêbado do Romeiro, o valentão, o queixoso, o mestre-tear, a Catarina, o doutor engenheiro, os cincos criados do doutor engenheiro, o fiscal, o guarda, o professor (para ensinar humoristicamente aos negros), o barbeiro (que corta os cabelos do Mateus e do Sebastião), o Mané-Gostoso, a baiana, o caboclo da meia-noite, o diabo e o vaqueiro.
Disse-me, ainda Mestre Antônio Pereira, que faz 55 anos que brinca e dirige bumba-meu-boi, e que foi a São Paulo, tendo brincado no Teatro Colombo e na fazenda Matarazzo, em 1954, sendo a sede do seu boi nos Afogados, nesta capital.
No estado do Rio Grande do Norte conforme verifiquei in loco são mais comuns nesse interessante bailado as seguintes figuras ora diferentes de nome, ora em personagens: o boi, o bode, a burrinha (Zabelinha), o jaraguá, o lagartão, o cavalo-marinho, o urubu, o engenho, o fantasma, o Mateus, o Birico (palhaço tipo vaqueiro de máscara de pele de bode, barbada e nariguda, dançador como o Mateus), a velha (Nanã), a caboclinha, o sisudo (que não fala, nem dança), o padre, o doutor, o fiscal, três damas e três galantes, o mestre, o contra-mestre, o gigante (cabeça, o caipora, o urso, o velho etc.
Se esse bailado tradicional não é originário do Nordeste brasileiro, pelo menos nele já foi introduzido um sem número de figuras, loas e cânticos regionais, formando um interessante sincretismo. As seguintes loas que anotei em Ceará-Mirim, (Rio Grande do Norte) em eloqüentes declamações do mestre, do Birico e do Mateus de um bumba-meu-boi a que assisti justificam:
O mestre:
Eu não conheço esse homem,

Nem que ele seja um barão
Que cumpre sua palavra,
Com dinheiro de algodão...

O Birico:
Pra dá hora só nambu,

Pra gritá só garapu.
Pra dá leite pelas costas,
Só o sapo cururu.
Pra te querê bem só eu,
Pra me desprezar só tu.
Não me tragas enganado
Meu santo do oio azu...

O Mateus:
Eu vinha de Baixa-Verde

Com destino a Taipu
Trazendo meu matulão
De couro de caitetu
De leite bom do sertão
Trazia a cabeça cheia
Até com o elo do pé
Eu via teu rasto na areia.

Eu vinha galopeando

No meu cavalo alazão
O cavalo deu um lombo
O Birico foi ao chão...

E quando o boi ressuscita dança novamente para a despedida, todos entoam ao som rebeca (rabeca), que é um instrumento inseparável do bois-dos-reis do estado potiguar:
Despedida, despedida

Quem se despede sou eu
Adeus, damas e galantes
Adeus, Birico e Mateus.
Meu sinhô dono da casa
Plantai a cana caiana
Quanto mais a cana cresce
Mais aumenta a vossa fama,
Se o povo preguntá
Quem passô neste lugá
Diga que foi os três reis:
Brechó, Gaspá, Batazá (Melchior, Gaspar, Baltazar).
Meu sinhó dono da casa
Já ganhemo o seu dinheiro
Adeus até para o ano.
Na entrada de janeiro...

Preferimos que o bumba-meu-boi seja exibido fora da época histórica a desaparecerem como tende juntamente com outros autos populares que já estão em franca decadência como o pastoril, exibição que teve sua origem em dramas litúrgicos e que tantos "sururus" ocasionava no Recife antigo, com suas mestras e contra-mestras dirigindo os cordões azul e encarnado, os congos, as lapinhas a ciranda (ou cirandinha), os fandangos ou cheganças etc., que tanto abrilhantavam os festejos do Natal como uma tradição da nossa vida folclórica...
 

(Barros, Manuel Balbino de. "Tradicionalismo folclórico da fogueira: o bumba-meu-boi junino". Diário de Pernambuco. 21 de julho de 1957)

terça-feira, 8 de março de 2011

Bumba Meu Boi - Definição

Definição Enciclopédica de
BUMBA-MEU-BOI
Manifestação folclórica em que são representados, com danças, cantos e declamações, os acontecimentos ligados à vida, morte e ressureição de um boi. (É celebrado de meados de novembro a janeiro, em todo o Nordeste, Sudeste e Sul até Santa Catarina; recebe várias denominações regionais: boi, boi-bumbá, boi-calemba, boi mamão, boi-de-reis, boi-pintadinho, boi-surubim, reis-de-boi.)
Criação inteiramente nacional, o bumba-meu-boi é considerado o auto popular ou dança dramática de maior significação estética e social do folclore brasileiro. Originou-se no fim do século XVIII, nos engenhos e fazendas de gado do Nordeste, e, desvinculando-se do reisado, festa ligada ao catolicismo, revestiu-se de caratér exclusivamente lúdico, com grande ênfase no aspecto visual e na constante renovação do roteiro. É representado ao ar livre e pode durar até oito horas. O público, numa roda em torno dos intérpretes, participa cantando e fazendo apartes, ao que os intérpretes respondem com improvisos. O bumba-meu-boi começa com uma louvação ou cantoria de abertura, seguida da apresentação dos personagens e da entrada do boi, que é representado por um homem no interior de uma armação de madeira ou metal, recoberta de panos coloridos. O boi dança, acompanhado de dois ou três vaqueiros, e adoece ou é morto, sob pretextos que variam. Entram em cena os diversos personagens, que tentam curá-lo ou ressuscitá-lo. 

Dentre os personagens, estão seres humanos do cotidiano, como o militar, o padre, o médico e o curandeiro, o funcionário do governo, o valentão, etc. (Capitão Boca-Mole, Mateus, o Doutor, Bastião, Engenheiro); animais (a Ema, a Burrinha, a Cobra e o Boi); e seres fantásticos (o Caipora, o Diabo, o Jaraguá). Após as diversas tentativas de salvá-lo, o boi pode se levantar ou não. No final, todos dançam e cantam juntos. O acompanhamento é feito com sanfona, flautim, violão, zabumba, ganzá e pandeiro.

"O meu boi morreu 
O que será de mim? 

Manda comprar outro, ó maninha 
Lá no Piauí" 

Um dos folguedos mais tradicionais do Brasil, tendo englobado até vários reisados, o bumba-meu-boi é uma espécie de auto em que se misturam teatro, dança, música e circo. Ele é representado sob os mais diferentes nomes em localidades que vão do Rio Grande do Sul (como boizinho) e Santa Catarina (boi-de-mamão) aos estados do Nordeste (boi-de-reis) e o Amazonas (boi-bumbá). Sua provável origem é o Nordeste das últimas décadas do século XVIII, onde a criação de gado era feita por colonizadores com mão-de-obra escrava. Nas fazendas, os cativos teriam misturado suas tradições africanas (como a do boi geroa) a outras européias dos senhores (como a tourada espanhola, as tourinhas portuguesas e o boeuf gras francês), numa celebração que tematizava as relações de poder e uma certa religiosidade, sendo, inicialmente, alvo de grande repressão. 

Tradicionalmente realizado no período das festas juninas (em alguns lugares também no Natal e no Carnaval), o bumba-meu-boi encena o rapto, morte e ressurreição do boi — uma história de certa forma metaforiza o ciclo agrário. Musicalmente, ele engloba vários estilos brasileiros, como os aboios, canções pastoris, toadas, cantigas folclóricas e repentes, tocados em instrumentos típicos do país, tanto de percussão como de cordas. Para alguns estudiosos, o "bumba" vem do som da zabumba, mas, para outros, trata-se de uma interjeição, que daria à expressão sentidos vários como "Vamos, meu boi!", "Agüenta, meu boi" ou "Bate, meu boi!". 

O boi, figura central do auto, geralmente é feito com uma armação de cipó coberta de chita, grande o bastante para que um homem a vista. A cabeça que pode ser feita de papelão ou com a própria caveira do animal. Na encenação, a lenda pode ser contada de várias formas, mas a história básica é a da escrava Catirina (ou Catarina), grávida, que pede ao marido Chico (ou Pai Francisco) para que mate o boi mais bonito da fazenda porque quer comer a sua língua. Ele atende ao desejo da mulher e é preso pelo seu feitor, que tenta a todo custo ressuscitar o boi, com a ajuda de curandeiros. Boi revivido, tudo acaba em festa. Outros personagens podem entrar na história para dançar, dependendo do tipo de boi: Bastião, Arlequim, Pastorinha, Turtuqué, o engenheiro, o padre, o médico, o diabo etc, todos quase sempre interpretados por homens, que se travestem para compor os personagens femininos. 
 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Lenda do Jaraguá

Jaraguá







Elemento fantástico existente no folclore brasileiro, o Jaraguá é encontrado em várias regiões. No Nordeste tem papel secundário no Bumba-meu-boi, aparecendo em alguns lugares de Pernambuco, Ceará, Maranhão, Alagoas, Rio Grande do Norte. Em São Luís, o Jaraguá é "Onça", em alguns lugares de Pernambuco a cabeça do cavalo, representa o "Babau" e no Amazonas é "Juarauá". Embora hoje se constitua numa figura complementar de um grupo, o Jaraguá talvez tenha sido originalmente um Reisado, um folguedo autônomo, sendo despersonalizado através dos tempos pela força do Boi. O estranho animal dança em passos miúdos, mas de vez em quando investe sobre os assistentes aos saltos, vai de um lado para o outro batendo as queixadas, fingindo morder. É feito de uma caveira ou mandíbula de cavalo, completa, sendo os dois maxilares manobrados por um cordão forte preso a uma mola para que possam abrir e fechar acompanhando o ritmo da música com o entrechocar dos dentes. Essa "cabeça" é presa a um pau comprido e forte que lhe serve de suporte e de pescoço, tão longo quanto seja possível o portador manejar. Um pano colorido, geralmente estampado em corres berrantes, veste-o até ao chão, cobrindo também quem o carrega, havendo uma abertura à altura dos olhos. Não costumam faltar os tradicionais arranjos de flores e longas fitas ou tiras de papel à guisa de cabeleira. O sucesso do Jaraguá é grande, principalmente entre as crianças que têm medo e fogem assustadas com a feia cabeça que bate os dentes. Sua figura, porém, é irresistível e, apesar do temor, seguem-no encantadas entre risos, cantos e gritos nervosos e alegres. No Estado do Rio de Janeiro marca sua presença no carnaval ao lado de boizinhos, mulinhas e dançadores do Mineiro-pau.

Até a próxima!
João Lins de Oliveira Filho.